Mandala-reiki
O Mandala-REIKI é uma técnica de meditação numinosa e neg-ativa (no sentido da não ação, o wu wen taoista) capaz de levar o participante a atingir um estado hipermetabólico oposto ao estado de vigília ou, em outras palavras, um estado ampliado de consciência. Nas primeiras experiências, a pessoa pode viver apenas uma sensação agradável de descontração e tranqüilidade.Porém, no decorrer das vivências é possível chegar ao êxtase (a capacidade de colocar o organismo e todo o Ser a serviço de uma comunhão metacognitiva, acessando o Self e permitindo a contemplação do numinoso em seu esplendor).
Muitas pessoas relatam imagens belíssimas. É preciso salientar que não se trata de meras fantasias da mente consciente. Ao contrário, por ser uma técnica que estimula o participante a se entregar às atividades metacognitivas, é possível acessar imagens que se escondem no âmago do seu Ser, no Self. Nesse sentido, não se trata de um Estado Alterado de Consciência, mas de um Estado Ampliado de Consciência.
Do ponto de vista terapêutico, o Mandala-REIKI auxilia todos aqueles que buscam tratamento para as contradições da existência através do espírito. O mundo moderno, caracterizado pela esquizofrenia, pode se beneficiar dessa técnica. Professores e outros profissionais que lidam com o publico e sofrem um tipo agudo de estresse classificado pelos profissionais da saúde como Burnout também se sentem aliviados após cada sessão.
É importante ressaltar que o principal objetivo da técnica é auxiliar o desabrochar do homo cooperativus. Assim, para encerrarmos esta comunicação, gostaria de fazer uma reflexão sobre o que vem a ser o imaginário da cooperação.
O antropólogo francês Gilbert Durand, atualmente uma das principais referências quando o assunto é o "imaginário", identificou no sapiens três forças dinâmicas que formam as bases arquetípicas de todo o pensamento e de toda a ação que manifestamos no mundo fenomênico. Se isso já não fosse suficiente para o imaginário ganhar status acadêmico, Durand ressalta ainda que é por meio do imaginário que o sapiens encontra equilíbrio antropológic para enfrentar ou diluir a angústia em relação ao tempo que passa e
em relação à consciência da própria morte. Em suma, nossa forma de pensar, sentir e agir manifesta essencialmente nosso relacionamento com a lâmina da foice de Cronos, da qual, mais cedo ou mais tarde, todos sentiremos o sabor.
Essas três bases arquetípicas, portanto universais e encontradas em todos os povos ou culturas, receberam as seguintes denominações: estruturas heróica, mística e dramática.
A estrutura heróica do imaginário é aquela que se caracteriza, sobretudo, pelo combate, pela dissociação, pelo enfrentamento. É a estrutura da discriminação, tanto positiva como negativa. Essa estrutura parece ser a predominante no mundo moderno e contemporâneo, sobretudo no Ocidente, influenciando significativamente nossa linguagem, banal ou acadêmica. O conflito ou a separação aparece, freqüentemente, nas palavras-chave da modernidade (por exemplo, na expressão desenvolvimento que, ao pé da letra, significa sem envolvimento), e também nas expressões dos militantes políticos (lutar, combater etc.) ou dos esportistas (adversário, meta, defesa, ataque etc.).
Não é à toa que a hipertrofia da estrutura heróica em nossa psique leva a uma militarização do mundo e, como apontam vários psicólogos de linha junguiana, para uma naturalização da esquizofrenia como norma de comportamento, uma vez que a dissociação é sua força motriz. Podemos encontrar também a estrutura heróica do imaginário manifestando-se fortemente através do chamado paradigma cartesiano, cuja característica é a separação dos objetos em diferentes reinos ou dicotomias (corpo e mente, natureza e cultura, entre outros).
O ativismo desenfreado e pouco imaginativo do Ocidente ou sua obsessão pela grandeza (um bom exemplo é o World Trade Center, nos E.U.A.) é interpretado por James Hillman, psicólogo norte-americano junguiano, como uma forma de enfrentamento e não aceitação da morte, das emoções e da natureza.
Por outro lado, a estrutura mística do imaginário é aquela que se caracteriza pela união, pela mistura, pelo envolvimento. Não é à toa também que essa estrutura do imaginário predomina nas culturas orientais, de onde surgem expressões como YOGA (palavra do idioma sânscrito que significa integração), REIKI (expressão japonesa que significa união da energia cósmica com a vital) e outras que procuram considerar não mais a existência de dicotomias, mas sim de polaridades dentro de uma única realidade. Essa
estrutura do imaginário também tende a predominar nas culturas não-modernas e esteve fortemente presente nas sociedades matriarcais.
No plano lingüístico encontramos, portanto, outras metáforas se manifestando: é o tecer, o abraçar, o envolver que costumam ser expressos com mais ênfase quando há o predomínio dessa estrutura. Segundo Yves Durand, psicólogo francês que criou um teste projetivo denominado AT-9, depois da meia-idade a estrutura mística do imaginário começa a se manifestar com mais intensidade, tomando o lugar da estrutura heróica marcante na primeira parte de nossas vidas. Jung, por sua vez, já salientava que a segunda etapa do processo de individuação não deixa de ser uma preparação para a morte. Essa mudança de sensibilidade foi denominada de metanóia.
Experiências de quase morte, segundo alguns pesquisadores, também costumam provocar metanóia, e a natureza, a fragilidade humana, etc., passam a ser aceitas e vividas pela pessoa que, com essa mudança de sensibilidade, começa a cultivar uma relação mais compreensiva com o outro e uma relação mais profunda com o sagrado.
No plano científico, essa estrutura do imaginário se manifesta com mais profundidade naqueles que evocam o chamado paradigma holístico.
E a estrutura dramática? Ela, segundo Durand, é a mais difícil de ser observada, pois ela não seria uma simples síntese das duas anteriores, mas a estrutura que possibilita re-ligar as duas descritas anteriormente. Este re-ligamento, no plano científico, já havia sido assinalado por Edgar Morin e outros pensadores ao discutirem o chamado paradigma holonômico no qual a Parte é revalorizada por também conter o Todo.
Uma metáfora que nos permite ilustrar a diferença entre essas três estruturas é a da relação entre as árvores e a floresta. A estrutura heróica, que fundamenta nossa visão militarista, ativa, desenvolvimentista, cartesiana etc., é aquela que, quando polarizada, nos faz enxergar apenas as árvores isoladamente. Por sua vez, a estrutura mística do imaginário, fundamentando uma mentalidade holística, quando polarizada nos leva a ver a floresta ou as relações entre as árvores, porém, extingue toda a singularidade de cada espécie. É o que Morin chamou de “redução pelo Todo”. Por fim, a estrutura dramática, uma estrutura “andrógina” por excelência ou contraditória (oximorônica segundo os pré-socráticos), é aquela que nos permite valorizar simultaneamente as árvores e a floresta.
Dito isso, podemos pensar qual é a estrutura do imaginário que estimula a cooperação e, de forma recursiva, compreender qual a estrutura do imaginário que é valorizada ou expandida quando cooperamos.
Em minha opinião, a cooperação está relacionada diretamente com a estrutura dramática do imaginário. É fácil identificar, por meio da apresentação resumida anteriormente, que a competição é uma manifestação fenomênica essencialmente “heróica”, pois valoriza a luta, a destruição ou a derrota do concorrente, do adversário etc. Mas qual seria a manifestação da outra polaridade, cultivada a partir da estrutura mística do imaginário? A cooperação? Não acredito, pois, se assim o fosse, seria necessário uma não aceitação da individualidade como acontece nas sociedades tradicionais e estaríamos diante de uma outra forma de reducionismo, a da redução pelo Todo, como já salientamos. É claro que é possível observar aqui uma espécie de solidariedade, de vivência comunitária, mas que parece funcionar muito mais na base da “cooptação” do indivíduo pelo sistema instituído do que pela cooperação voluntária e involuntária pelo bem comum.
Assim, a cooperação, como um sentimento interiorizado e não apenas como estratégia econômica, parece ser uma forma de expressão criativa da estrutura dramática do imaginário e, portanto, uma forma de ver, sentir e agir no mundo capaz de cultivar uma formosa e densa floresta onde se é possível também se deslumbrar com a beleza singular de cada árvore envolvida em sua trama. É o que buscamos por intermédio do Mandala-REIKI.
(No livro "Introdução ao mandala-reiki", de Adilson Marques)
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